Nós, os alienistas?

“O alienista” e o ensino de Freud [1]

Cecilia Maria de Brito Orsini

 

 

Apresentação

 

O presente artigo está ligado à minha atividade didática no ensino introdutório da obra de Freud, numa modalidade denominada em nosso meio de “grupos de estudos”. Seu propósito é demonstrar como, antes de iniciar a leitura de Freud, promovo o desenvolvimento de um espírito de trabalho necessário ao contato com sua obra. Este trabalho remonta já há quinze anos, muito embora o conjunto de minha atividade de ensino em instituições – universidades e instituições psicanalíticas – conte já com trinta anos de experiência acumulada.

Devido a certas circunstâncias de meu percurso, os grupos conformaram-se substancialmente de residentes de psiquiatria do Hospital das Clínicas (FMUSP), contando também com uma porcentagem de psicólogos iniciantes e de interessados de outras áreas, na maior parte desejosos de se iniciar em psicanálise antes de ingressar numa formação institucional. Esse perfil de participantes, pouco ou nada familiarizados com o trabalho analítico, foi condicionando um modo singular de desenvolvimento de meu trabalho didático, que considero importante partilhar, principalmente naquilo que diz respeito à abertura de uma fresta no modo habitual de ver o mundo, que permita a entrada efetiva na obra freudiana.

O trabalho em grupos de estudo caracteriza-se por uma transmissão mais artesanal, mais cuidadosa, quase como uma oficina de trabalho. É uma transmissão que se dá de acordo com as características de cada grupo específico. Desenvolver a familiaridade dos não iniciados em Freud com o seu pensamento não é uma atividade simples. Comumente, com iniciados ou não, constitui um verdadeiro desafio, já que mobiliza afetos e resistências, devido à natureza do material abordado – os processos inconscientes.

Em razão dessas características, o grupo, ou curso ― já que há uma sequência com começo, meio e fim ―, não se inicia, como tradicionalmente se faz, com a “A interpretação de sonhos”, ou com as “Cinco lições”, ou com as “Conferências introdutórias…”, ou mesmo com os “Estudos sobre a histeria”. De modo diverso, passamos um tempo construindo um terreno propício à pensabilidade da psicanálise, ou seja, à possibilidade de ruptura com paradigmas tradicionais de conhecimento. Considero que essa etapa tem, por assim dizer, certo valor clínico, pois é a que prepara no leitor o espaço interno necessário à transformação no modo pelo qual ele vê o objeto de trabalho da psicanálise, qual seja, o sofrimento psíquico. Por meio desse introito procuramos formar um leitor que se deixe afetar pela obra ― se o encontro do leitor com a obra freudiana verdadeiramente acontece, produz-se uma troca ao modo daquela descrita algures por Deleuze, entre uma determinada espécie de vespa e uma determinada espécie de orquídea: o encontro entre ambas resulta em sua fertilização recíproca, cada qual a partir de sua singularidade. O leitor deixa-se afetar pela obra, que o transforma e que, ao mesmo tempo, transforma-se no processo de sua apropriação. Por fim, ocorre também o encontro transformador entre o mediador que coordena os estudos e seus componentes.

Esse tempo inicial tem seu ponto alto na leitura do conto “O alienista”, de Machado de Assis, que parece ter sido feito sob medida para ilustrar os imensos obstáculos encontrados pelo médico na sua relação com a loucura, sobretudo quando deseja enquadrá-la nas classificações características da doença mental ― lembrando que “alienista” era o nome dado ao médico que se encarregava dos loucos no século VIII. Este conto será então o nosso mote, já que antecipa, maravilhosamente, os primeiros passos e percalços de Freud ao lidar com suas histéricas, entrelaçando, num tom bem-humorado e não sem altas doses de ironia, fantasia e realidade, loucura e razão ― mescla a que o aluno não está habituado em seus modos cotidianos de pensar, ainda moldados sob o pano de fundo do pensamento positivista.

Assistimos, ao longo do conto, o desenrolar das divertidas e incríveis peripécias do Dr. Simão Bacamarte, o alienista de Itaguaí, em suas tentativas de estabelecer a loucura como fato médico objetivo e inconteste, classificando os habitantes de sua vila natal de formas cada vez mais estranhas (qualquer semelhança com os cinco DSMs não é mera coincidência…). O objetivo de Simão Bacamarte acaba resultando num fragoroso fracasso; o sutil e hábil narrador vai desmontando a sua ambição, passo a passo, e o conto culmina ironicamente na conclusão do próprio Dr. Bacamarte de que o único louco de Itaguaí é ele mesmo… Desde a primeira página do conto o insidioso narrador sugere esta ideia ao leitor, pois o Dr. Bacamarte, “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil”, formado na Universidade de Coimbra, não aceita a irrecusável proposta de el-Rei de reger aquela honorável instituição, com o excêntrico intuito de meter-se em Itaguaí, um buraco na província do Rio de Janeiro, para “fazer ciência”. [2]

Assim, Machado nos transmite, em chave literária, a mesma visão que Michel Foucault nos traz desse momento histórico, em seu História da loucura: as consequências insuspeitadas da tentativa de enquadrar a loucura nos escaninhos de determinadas doenças. Foucault insiste, como Machado, na denúncia do absurdo que é tentar delinear, separando de modo radical, duas coisas necessariamente implicadas: a razão e a loucura.

Especificamente por sua forma literária ficcional e bem-humorada,  o conto “O alienista” funciona no grupo como o catalisador de uma passagem, da sorte do lúdico. O aspecto lúdico diz respeito à possibilidade de rirmos dos nossos próprios equívocos na abordagem do inconsciente, se feita de forma positiva, concreta, como o faz Simão Bacamarte. Coisa que sucede não somente ao psiquiatra, mas também acomete o psicanalista, sobretudo o iniciante, desejoso de positivar sobre o paciente seus próprios conhecimentos, como uma sorte de boia salva-vidas frente às próprias angústias de lidar com o sintoma psíquico. Dr. Bacamarte será o “mote” de uma metáfora relembrada sempre que incorrermos neste equívoco, “sintoma” dos nossos modos habituais de pensamento consciente.

Instrumentados pela fina e divertida ironia de Machado, realizamos o cotejo lúdico entre os dois “alienistas”, Freud e Simão Bacamarte, e, aproveitando a esteira metafórica, pensamos em nós mesmos como “aprendizes de alienistas”, refletindo sobre o fracasso do método classificatório de abordagem da loucura no que diz respeito à sua compreensão. Assim realçamos a ousadia de Freud de lançar-se nas brumas do próprio inconsciente, através da interpretação de seus próprios sonhos e dos de seus pacientes, e nos encorajamos a realizar o mesmo mergulho.

 

Vamos, então, ao texto.

 

I

 O alienista e sua loucura

 

Para os que não se recordam, a história conta as dificuldades do Dr. Simão Bacamarte, o alienista de Itaguaí, para distinguir claramente a fronteira entre razão e loucura. Para tanto, resolve criar o asilo, obtendo a muito custo a licença da Câmara. Dr. Bacamarte, que começa por internar os francamente loucos, vai progressivamente internando a todos, devido à sua estrita concepção de sanidade: o perfeito equilíbrio das faculdades mentais. Em meio aos fatos, e depois de muitas idas e vindas, a população começa a se rebelar, rebelião que acaba sendo sufocada pela autoridade real. No final da história, Dr. Bacamarte, por uma questão de lógica, decide-se pela concepção oposta de loucura ¾ o perfeito equilíbrio das faculdades mentais ¾, o que acaba por levá-lo à própria internação e morte.

 

Uma vez que a abertura de uma obra contém sua própria lógica, vejamos com mais vagar o começo do conto.

 

Ao principiar a narrativa, o Dr. Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas, formado na Universidade de Coimbra, não aceita uma proposta irrecusável de el-Rei: reger aquela honorável instituição. No entanto, Dr. Simão o faz, alegando o extravagante intuito de meter-se num buraco na província do Rio de Janeiro, para fazer ciência:

– A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.

Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista, senhora (…) não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, – únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria os riscos de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.

Vê-se cavado no fundo do texto o projeto de higienização das relações através do discurso médico, cuja introdução é fundamental no Brasil oitocentista, como uma espécie de transição à racionalidade burguesa, como observa agudamente Katia Muricy, em seu brilhante livro de ensaios A razão cética. Machado de Assis e as questões de seu tempo, (1998). Muricy analisa a interessante posição de Machado frente ao conhecimento: uma mistura equilibrada de ceticismo, dúvida e crença na razão, pautada por uma atitude crítica frente a seu objeto, atitude cuja potência se encontra no recurso privilegiado à ironia.

Senão, vejamos.

Logo de início o programa de um casamento higiênico é frustrado:

D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos.

Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso, médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, – o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral (…).

– A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.

Ato contínuo, deseja criar o asilo:

A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é argüida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades.

A voz do povo, transforma-se em bom senso, uma vez que a idéia de confinar loucos num mesmo espaço já anuncia a insensatez do projeto e lança publicamente a suspeita de que o alienista “não bate bem”…

A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência (…). A idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.(grifo meu).

Até a igreja, personificada no padre Lopes, tenta influir nos rumos políticos que começa a tomar a história:

– Olhe, D. Evarista, disse-lhe o padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo. ( p. 273-4).

Como se vê, a ironia, grande arma de Machado, prossegue fina, aguda, implacável, cortando o Dr. Bacamarte, como se ele fosse queijo e o narrador, faca. Na política, na opinião popular, no clero, no registro familiar, todos suspeitam: a conduta de Bacamarte parece bizarra, para dizer o mínimo. No entanto, na seqüência do conto, Machado promove uma reviravolta inesperada, que veremos a seguir.

 

II

Dr. Simão Bacamarte: um cidadão acima de qualquer suspeita

 

O poder da investidura simbólica que Dr. Bacamarte carrega o coloca, apesar de tudo, como “um cidadão acima de qualquer suspeita” e, assim, legitima suas iniciativas. Ao examinar mais detidamente a abertura do conto, vemos que, em primeiro lugar, Simão Bacamarte, que estaria em posição de escolher o melhor posto dado a um cientista e também credenciado a se casar com qualquer uma dentre as maiores beldades locais, além de recusar o honorável cargo, escolhe, entre tantas opções, uma viúva não bonita nem simpática. Pela fala de seu tio já vem a primeira suspeita, endossada posteriormente pelo vigário local, de que Dr. Bacamarte exibe um comportamento no mínimo invulgar, correndo o risco de perder o juízo. Dr. Bacamarte defende-se, sustentando ao tio que fez uma espécie de casamento científico e não dispersivo, com uma mulher saudável para lhe dar descendência, e feia o suficiente para não desviá-lo de seu objetivo maior – a ciência – aliás, o mesmo motivo que o já o afastara de um cargo administrativo em Coimbra.

Com a recusa de D. Evarista de seguir a esdrúxula dieta que lhe prescreve o doutor para tratá-la de uma suposta esterilidade (já que a virilidade de nosso herói está fora de questão), a primeira parte do projeto já vai por água abaixo. Bacamarte reage através da ciência: consola-se, atraído pelos recônditos do psíquico. Vê-se logo: a teimosia da mulher, a dificuldade que ela tem de assimilar hábitos prescritos tão longe, lá na metrópole, impelem o nosso herói ao estudo daalma, quem sabe de modo a melhor controlá-la. Ou tenta o alienista buscar desta forma as “recônditas” razões de tal recalcitrância de parte de D. Evarista? O astuto narrador semeia a idéia de que o mergulho de Simão Bacamarte no estudo da loucura é provocado pelo fragoroso fracasso de seu casamento higiênico com D. Evarista e de sua posição de “chefe” de família, já que D. Evarista recusa-se, terminantemente, a deixar de comer carne de porco, com a qual fora criada.

Como as pretensões higiênicas do doutor são frustradas, o projeto de fazer descendência é substituído pelo casamento com a ciência – a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas. Já se prenuncia, ironicamente, na abertura do livro, a impossibilidade lógica de seu casamento com a ciência positiva, ao menos no que concerne ao objeto de estudo escolhido – a alma. Assim como o casamento com uma senhora positivamente antipática e feia, embora saudável, contradiz a lógica do desejo.

A seguir, a primeira providência que toma Dr. Simão é criar o asilo, de modo a isolar a loucura, com o fito de melhor estudá-la e tratá-la, retirando-a do convívio comum no espaço social, ilustrando um dos aspectos fundamentais da arqueologia do silêncio a que a loucura será submetida – o seu aprisionamento tanto no asilo, quanto no discurso médico – apontado por M. Foucault.

As insinuações continuam, na voz do povo, na boca do padre, entre os políticos. Contudo Machado prepara uma interessante reviravolta na trama: nada disso impede que o Dr. Bacamarte leve adiante o seu projeto e funde a Casa Verde, legitimado pelo poder que lhe conferiu a coroa portuguesa e pela investidura simbólica do saber que porta.

O nome do asilo, finalmente criado, é outra ironia, pois o verde, que é a cor da esperança, se transformará no negrume do terror. Mesmo o dístico que Simão resolve apor na frente da Casa Verde é outra profunda ironia, já que Bacamarte escolhe uma contraditória frase atribuída a Maomé, que condensa muito bem a ambigüidade do estatuto dado à loucura, uma vez que a frase afirma que os loucos são considerados sagrados, na medida em que Deus lhes tiraria o juízo para que não pecassem. Frase que o Dr. Simão vai atribuir a algum Papa, de modo a dar credibilidade a seu registro, noutra mistura improvável – o Papa e Maomé? – de nosso doutor.

Na seqüência do conto, o Dr. Bacamarte irá internar paulatinamente quase todo mundo, segundo seus arbitrários critérios, até levar a Vila a uma rebelião que será posteriormente sufocada pela autoridade da coroa e pelos principais da vila, estes poderosos seres invisíveis – como sói acontecer quando se trata do poder – que repetidamente endossam o poder de Dr. Simão Bacamarte, ao longo das insurreições que se sucedem. Embora não seja nosso objeto nesse momento, é interessante notar que Machado faz aqui uma deliciosa crítica à política brasileira, parodiando de modo caricato a Revolução Francesa, seu período de terror e a restauração da antiga ordem. E ilustra, como nota Muricy, que há uma transição importante na mudança de mãos do poder da monarquia para a burguesia que, na época oitocentista, passa pela figura da autoridade médica.

Voltando ao que nos diz respeito, os movimentos da história também reproduzem, sob chave literária, como dissemos acima, a fina e densa argumentação de Michel Foucault. Os dois autores se complementam. Foucault vai demonstrar, através da história, que a loucura recebeu ao longo do tempo as mais diversas concepções: desde a função de portadora de uma verdade sagrada até a mais completa errância do psíquico, atestada pelo hábito medieval de deixar os loucos entregues à correnteza dos rios, colocados num barco, a nau dos insensatos, sem por isso impedi-los de circular livremente nas cidades em que aportassem. De fato, a segregação da loucura em espaços especiais vai ocorrer posteriormente. Em primeiro lugar, nos antigos leprosários, locais portadores de uma espécie de aura sagrada que acometia os leprosos, já que a doença seria enviada por Deus para que expiassem sua culpa ainda em vida. Espaços que foram abandonados pela quase extinção desta doença no século XVII. Posteriormente, confina-se a loucura em locais onde se mesclavam todos os tipos de marginalizados no século XVIII, como parte do projeto de exclusão por parte da burguesia em relação aos inúteis para o trabalho de um modo geral. Isso ocorre até o chamado período do nascimento do asilo médico, já no final do século XVIII, período abordado por Machado. Vem daí o grande refinamento da ironia, apontada mais atrás, da “epígrafe” da Casa Verde: Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa. (p.276) O gênio do sábio narrador, um foucaultiano avant la lettre, é notável.

Seja como for, a incumbência de encarregar à ciência médica os cuidados com a loucura só pôde acontecer depois que Descartes cria o exercício da dúvida metódica, interditando ao pensamento que se quer como tal todo e qualquer grau de incerteza. Pensamento e desrazão não podem coexistir. A desrazão, confundida também com imaginação e assim expulsa da filosofia, só pôde sobreviver na arte, conforme comentário de João Frayze (1995).

Voltando a Machado, é fantástico observar como ele, desconhecedor destas duas fontes, Foucault e Freud, opera em seu conto num registro muito próximo a esses dois autores, num genial prognóstico da crítica que estava por vir no século subseqüente. Se a arte da literatura encontra a forma de contradizer a realidade criando uma nova realidade, mais verdadeira do que aquela (Carone, 2002), observamos que Machado conseguiu, na criação literária deste incrível personagem, tanto antever a revelação freudiana de que a loucura – ou uma lógica não-racional – encontra-se implicada em todos os atos de razão, quanto adiantar a crítica foucaultiana que demonstra que o modo arbitrário/discricionário de abordar a loucura a condena, indiscutivelmente, ao silêncio. Como sublinha Muricy:

É especialmente na ironia à positividade experimental, aos altos ideais humanitários do saber psiquiátrico e à sua suposta vinculação com os princípios universais da razão – vínculo que legitimava, no discurso médico, a intervenção da psiquiatria no social – que a narrativa ganha sua inteligência mais requintada.” (op. cit., p.36).

Pois o que vai acontecer ao nosso ilustre alienista, na continuação do conto, senão a constatação desta implicação recíproca?

 

III

A “nova teoria”

 

Senão, vejamos:

Primeiramente, como bem intencionado médico, o Dr. Bacamarte vai precisar definir o que é a loucura:

O alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiro em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas. Isto feito, começou um estudo aturado e contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências.

Aberta a “Casa Verde”, assistimos a uma torrente de loucos: eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados de espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação.

Assim, o narrador revela com clareza meridiana a extensão do campo da loucura. E acrescenta, com mordacidade:

A paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa.(p. 279, grifo meu).

E mais:

Ora, todo este trabalho levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questão, e ia de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista (p. 280).

Assim, D. Evarista acaba por cair em melancolia. Dr. Bacamarte lhe prescreve o remédio tradicional: se distrair numa viagem ao Rio. Enquanto isso, livre da mulher e aprofundando seus estudos, Simão Bacamarte vai elaborar uma nova teoria que partilha com seu interlocutor e antecessor imediato no que diz respeito à autoridade curativa – Sr. Crispim Soares, o boticário:

– A loucura, objeto de meus estudos, era até agora uma ilha perdida num oceano de razão; começo a suspeitar que é um continente.

Mais claro, impossível…

Disse isso, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente sua idéia. No conceito dele, a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isso com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos (…) uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal prosmiscuidade, o alienista disse-lhe ser tudo a mesma coisa(grifo meu).

Bacamarte declara, tornando mais precisa sua concepção:

 Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia (p.286).

O vigário, ao ouvir a explanação da “nova teoria”, sensatamente, protesta que

não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.

No entanto, apesar da sabedoria do vigário, a nova teoria é o turning point do conto. Realmente, os fatos vão comprovar que tão colossal teoria não mereceria sequer execução. Porém, o alienista progride firme em seus objetivos. Tanto é que a ação, a partir daí, se precipita numa sucessão de internações descabidas.

A população confunde-se:

Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doido.

O narrador dirá, com sabedoria:

Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia (p. 313).

Nesse ponto vê-se claramente que a ficção, a imaginação, qualquer excesso do espírito não passava ileso ao Dr. Bacamarte, culminando até mesmo na internação da própria D. Evarista, vítima de mania suntuária, pois se entretinha excessivamente com as próprias jóias e vestidos, na falta de ter o que fazer.

Em todos esses momentos, Machado, encoberto pelo narrador, subliminar e satiricamente, inverte as posições convencionais do homem de ciência e do homem de ficção, segundo a arguta análise crítica de Carone (comunicação oral, 1991-em curso): o primeiro enlouquece por excesso de imaginação “científica” e o segundo, que representa o escritor, porta uma contundente verdade. Enquanto o homem de ciência despreza, encarcera, os excessos de toda ordem, entre os quais os excessos imaginativos do homem de ficção, este se “vinga” demonstrando onde está o equívoco: a partir daí o contista vai revelar que a exigência lógica do próprio espírito cientificista de Bacamarte é o que vai arrastá-lo à Casa Verde.

A exigência da lógica cartesiana, aplicada ao campo da psique, é, numa palavra: loucura.

 

IV

Por uma questão de estatística

 

Dr. Bacamarte começa a desconfiar um tanto tardiamente de que algo deve estar errado. Ao cabo de certo tempo, quatro quintos da população se encontra internada. Dr. Simão é obrigado, por uma questão de lógica estatística, a concluir o inevitável: sua teoria estava errada. Em seu ofício à câmara, Bacamarte conclui:

(…) desse exame e do fato estatístico resultara a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto.

Neste hábil jogo de inversões e definições arbitrárias, Dr. Simão é obrigado, então, a libertar a população, que já se encontrava quase toda encarcerada.

Mesmo assim, resta a determinação pela câmara, com seu parágrafo número quatro, que tanto trabalho deu para a sua aprovação, de que sejam internados os loucos: que ora são aqueles que demonstram o perfeito equilíbrio das faculdades mentais. Nesta parte, o conto sofre outra cômica reviravolta. Aqueles que durante as rebeliões e ao longo das peripécias do nosso herói demonstraram sensatez, integridade e equilíbrio são internados para estudo. Bacamarte, por intermédio de uma série de divertidos estratagemas que constituem o tratamento desses “pacientes”, consegue provocar em seus “doentes” alguma prova de desmesura: seja alguma pequena ambição encoberta, seja alguma pequena distorção da realidade para fins próprios, seja alguma mentira com fins pouco nobres. Desta forma, consegue libertar um por um, esvaziando a Casa Verde.

Surpreende-se, contudo, o nosso obstinado alienista: não haverá em Itaguaí um único louco?

A partir daí está preparado o terreno para o tragicômico desfecho da história, fatal para o herói, pois a conseqüência lógica é que o próprio Bacamarte, em seu solilóquio, termina por fazer seu diagnóstico:

Achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto.

Ainda assim, em seu afã objetivista, Bacamarte convoca os amigos que ponderam com ele: mais uma qualidade – a modéstia – era o que o impedia de se ver como tendo o juízo perfeito:

Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato contínuo, recolheu-se à Casa Verde (…) – a questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática. (p. 327).

Simão Bacamarte morrerá dali a 17 meses, sem ter podido alcançar nada. A alegoria é evidente: sujeito e objeto do conhecimento se fundem, e a metodologia positivista fracassa.

Na última frase do conto – Seja como for, efetuou-se o enterro, com muita pompa e solenidade – Machado enterra o homem de ciência, realizando, na criação literária, o que Michel Foucault sinalizará ao fazer, em sua História da loucura, a arqueologia de uma interdição. Pois, filosoficamente, a aspiração a uma objetividade absoluta condena ao silêncio a própria loucura que a personagem de Machado de Assis tanto quer estudar. É aí que o anseio pelo conhecimento positivo dá um tiro em seu próprio pé. Suprema ironia: o nome de nosso herói – Bacamarte – é o mesmo da antiga arma de fogo. Aliás, é bom lembrar que no conto a dinastia de Bacamarte é extinta com a morte do próprio – a derradeira vingança genialmente preparada por Machado .

Por um outro caminho, e de forma lúdica, Machado brinca com nossa obsessão pela objetividade, resquício de nosso nascimento no interior da prática médica, transformando o alienista numa ficção delirante e o ficcionista em homem de razão.

Vale lembrar que Freud, no final da minuciosa análise dos delírios do presidente Schreber, com assombrosa honestidade intelectual e sem a menor cerimônia vai deixar no ar a inquietante interrogação: onde se encontra a maior dose de verdade? Nos seus delírios teóricos ou nas delirantes teorias de Schreber?

É aí que observamos a operação interpretativa efetuada por Machado, pois o escritor denuncia o campo do saber instituído, deixando entrever suas regras organizadoras, tão “insensatas” quanto aquilo que nosso alienista desejava estudar. Aquilo que se dá a ver e transforma o campo representativo “homem de razão versus homem da loucura” é o efeito daquilo que Herrmann denomina de ruptura de campo, base da operação psicanalítica, mas que pode ser encontrada na Literatura, nas Artes, no mundo, ampliando, consideravelmente o escopo de nossa disciplina, dirigindo-se, assim ao horizonte de sua vocação (Herrmann, 2002).

O ainda mais notável é que a peculiaridade do conto, cheio de voltas, surpresas e reviravoltas, revela em sua construção formal o movimento inerente ao desarrazoado da loucura que, arbitrariamente, seguindo o seu próprio curso, como a nau dos insensatos,“erra”, sem nada deixar estar no lugar. Assim, o barco do conto erra ora para cá, ora para lá, indo aportar no asilo, onde a fala do louco “morre”.

Esta curiosa construção que subverte os termos da questão, impressiona por sua perfeição, ao mesmo tempo que nos diverte, faz com que possamos rir de nós mesmos, de nosso suposto saber, e nos ensina a curar nossa ânsia de conhecedores. Uma vez que Machado rompe o campo, deixa entrever e inverte os termos do problema do conhecimento em causa, podemos com ele perguntar, mesmo que de modo diferente que numa análise:

– quem diz que a literatura não cura?

 

V

A Historia da loucura, por Michel Foucault

 

A loucura, este ser inquietante, nem sempre esteve apartada da vida cotidiana como atualmente. Houve um tempo, não tão longínquo assim, em que o desvario era tolerado no espaço da vida em comum. Ainda hoje, em determinadas culturas, o delírio chega a ser até mesmo venerado como sagrado portador de verdades. Michel Foucault demonstra, através de exaustivo estudo histórico, que o isolamento físico e intelectual da loucura só foi possível a partir do momento em que efetuou-se a operação filosófica promovida por Descartes no pensamento ocidental: através do exercício da dúvida metódica, separa-se radicalmente a razão da desrazão, abrindo o campo para o desenvolvimento científico, porém impedindo um diálogo entre a razão e sua equivocidade. Isso tem conseqüências. Somente a partir daí é que a loucura, apartada da razão, pôde ser “isolada” no espaço da ciência, confinada à medicina, que passa a ter a incumbência de estudá-la enquanto doença mental – isto quer dizer: encontrar sua base orgânica – e pesquisar modos de dominá-la. Portanto,é o discurso médico que “cria” a loucura enquanto doença e a retira da posição de ser apenas uma diferença relativa entre os entes. Uma das conseqüências práticas mais importantes dessa partilha entre razão e desrazão foi o impedir o convívio humano com a loucura na vida cotidiana por meio do seu aprisionamento no asilo. Mais recentemente, o confinamento tomou a forma de uma espécie de quimera fármaco-química: a domesticação da loucura por intermédio do desenvolvimento ímpar de medicamentos psicotrópicos, muito úteis sem dúvida, mas cujo uso indiscriminado por vários tipos de especialistas (cardiologistas, clínicos, endocrinologistas, ginecologistas, e outros) induz a pensar no desejo de extinguir a desrazão e o sofrimento humano, por parte da medicina. A quimera da eternidade não habita somente o imaginário médico. Na realidade, esse imaginário reflete apenas a ponta do iceberg de um imaginário social que, no limite, sonha com a analgesia.

A arqueologia de como este silêncio aconteceu é o alvo certeiro da reflexão crítica realizada por Michel Foucault em A história da loucura, conforme já notamos acima. À guisa de introdução ao tema, indico ao leitor a resenha desta obra de Foucault efetuada por João Frayze-Pereira, no brilhante ensaio “O que é a loucura”, da coleção Primeiros Passos, editada pela agora extinta, Editora Brasiliense

Será justamente a psicanálise aquela que vai retomar o diálogo entre razão e loucura no pensamento ocidental, abolindo esta interdição. Será a partir de A interpretação de sonhos que o homem diurno da ciência e o homem noturno dos sonhos e da poesia vão coincidir. Surge, com Freud, a proposta de uma nova forma de conceitualizar os fenômenos psíquicos, já antecipada sensualmente na literatura, proposta que revolucionará a epistemologia clássica. A questão do desejo inconsciente vai interferir irremediavelmente na dinâmica da relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Estes dois polos – sujeito e objeto – não serão jamais os mesmos: um objeto “desafetado”, separado radicalmente daquele que o estuda, um sujeito neutro e desinteressado.

 

VI

A literatura

 

Já a literatura, que será o mote desta conversa, vai adiantar os passos de Freud, combinando, entrelaçando, confundindo ficção e realidade, loucura e razão, na fascinante mestiçagem produzida no conto de Machado de Assis – O alienista. Ademais, Machado vai nos recontar, sob chave literária e de modo surpreendente, a história que Michel Foucault faz do marco das tentativas frustradas de a ciência separar nitidamente razão e loucura. Machado insiste, como Foucault, na loucura como criação do discurso do “alienista” e na crítica ao corte radical efetuado entre duas instâncias necessariamente implicadas: a razão e suas fraturas.

Seguindo as sugestões de muitos acerca dos laços profundos e subterrâneos que unem psicanálise e literatura, podemos constatar como o conto de Machado funciona interpretativamente pois abre uma fenda na constituição do saber médico em curso durante o período oitocentista. A ruptura de um campo inconsciente implica no delineamento da regra que o sustenta. A revelação do alienista “alienado” em sua ciência, será a volta no parafuso que faltava à ciência para saber-se assentada sobre o mundo fantasmático, ou simbólico, coisa que conhecemos desde a criação da noção de elaboração secundária por Freud (a meu ver uma noção pouco explorada): o espírito se arrelia com qualquer dado que lhe pareça contraditório, propondo ligações imaginárias ali onde só encontramos lacunas (citação livre da autora). Freud revela que o pensamento humano, insatisfeito com suas fraturas, providencia bandagens, próteses e apoios, ainda que “falsas ligações”, de modo a seguir em frente.

A elaboração secundária, disfarce mor do desejo, se encontra na base da reflexão filosófica e de todo anseio por conhecimento científico.O que nos espanta é: como Machado “sabia” disso? Toda a sua sublime ironia está em interrogar, sub-repticiamente, através do seu alienista: quem conhece a verdade? Ficção ou ciência?

A partir daqui, tentaremos demonstrar como esta ruptura acontece, através da análise do conto. Ao longo da narrativa, observaremos o desenrolar das divertidas e incríveis peripécias do herói, Dr. Simão Bacamarte, para estabelecer a loucura como fato médico objetivo e inconteste. Programa que o hábil narrador vai desmontando ponto por ponto, desde a primeira página do conto, plantando placidamente na cabeça do leitor o tema desta opereta, tema que se repetirá dos mais surpreendentes e cada vez mais divertidos modos: o louco é o próprio médico.

 

VII

E Freud?

 

Felizmente, Freud, teve melhor sorte.

O encerramento do “Freud-alienista” em sua Casa Verde particular, – a sua conhecida auto-análise – resultou na elaboração de sua obra magna, A interpretação de sonhos. A percepção de que ele próprio fazia parte do objeto a ser conhecido levou-o a elaborar uma nova lógica para a vida psíquica, a lógica do inconsciente. A partir daí o pensamento humano passa a exigir uma nova sintaxe, para além da sintaxe do homem diurno da vigília. Um novo modo de conhecer, um novo paradigma é criado pela psicanálise, que nada tem a ver com o paradigma da medicina, muito embora brote de seu interior, particularmente da neurologia. Provém daí o fato de a linguagem do aparelho psíquico estar “carregada” de termos oriundos da neurologia: a condução psíquica, a excitação, os investimentos, os princípios de descarga, as respostas motoras. Infelizmente, para o dissabor dos que conhecem Freud mais a fundo, esta linguagem que brota de um campo e é transmigrada para outro, radicalmente diferente, confunde o leitor apressado. E confunde o orientador de estudos desta disciplina que, ancorado nesta linguagem, apóia-se num modo positivo de ensinar Freud.

A este propósito é de extremo interesse resgatar um livro pouco mencionado, Freud e a alma humana, de Bruno Bettelheim que, austríaco e judeu como o pai fundador, mas tendo nascido cinqüenta anos depois, teve a oportunidade de emigrar e trabalhar nos Estados Unidos, onde sofreu verdadeiro choque cultural ao ter de ensinar Freud em inglês. Relata este autor, verdadeiramente emocionado, que – absolutamente– não era o mesmo Freud que conhecera e acompanhara de perto na língua alemã. Era um Freud frio e abstrato, criado pela opção cientificista da tradução de Strachey, inatacável portanto, uma vez que sacramentada pelo próprio pai fundador. Com oitenta anos, Bettelheim avaliava que não poderia morrer em paz, enquanto não desse seu testemunho:

Em seu trabalho e em seus escritos, Freud falou com freqüência da alma ¾ de sua natureza e estrutura, de seu desenvolvimento e atributos, do modo como se revela em tudo o que fazemos e sonhamos. Lamentavelmente, ninguém que o leia em inglês pode imaginar isso, porquanto quase todas as suas inúmeras referências à alma e a questões pertinentes à alma foram suprimidas nas traduções.

Esse fato, combinado com a tradução errônea ou inadequada de muitos dos mais importantes conceitos originais da psicanálise, faz com que os apelos diretos e profundamente pessoais de Freud à nossa humanidade comum se apresentem aos leitores de inglês como enunciados abstratos, despersonalizados, altamente teóricos, eruditos e mecanizados ¾ em suma, “científicos”¾ sobre o estranho e muito complexo funcionamento de nossa mente. Em vez de instilarem um profundo sentimento pelo que existe de mais humano em todos nós, as traduções tentam induzir o leitor a desenvolver uma atitude “científica” em relação ao homem e suas ações, uma compreensão “científica” do inconsciente e de como este condiciona grande parte de nosso comportamento.(p.17). Ou, mais contundentemente: (…) possivelmente, uma tendência inconsciente para se distanciarem do impacto emocional daquilo que Freud procurou transmitir. (p.46).

 

Voltando ao nosso “alienista”, é bom lembrar que Freud começa sua carreira como o nosso herói, envolvido no desejo de isolar, elucidar e erradicar os sintomas histéricos, como o neurologista que foi durante vinte e dois anos (Mannoni, 1994)! Contudo, a ironia na história das idéias, como anuncia tão bem Machado, prega uma peça também em Freud. Assim como o alienista de Itaguaí, o ilustre vienense, partindo dos sintomas neuróticos chega aos sonhos, destes aos esquecimentos, aos lapsos de linguagem, aos atos falhos, até à vida psíquica como um todo, ou seja, ao derramamento da desrazão na psicopatologia da vida cotidiana. Mesmo a idéia de uma memória capaz de dar conta de fatos acontecidos, ou de uma realidade factual, ou qualquer tipo de ancoragem no real, cai totalmente por terra, desde o antigo texto Lembranças encobridoras, onde o terreno da memória torna-se movediço, de resto, como em Proust – memória, uma espécie de ficção que depende seja das circunstâncias do presente, seja do projeto de futuro. Assim Freud, como o alienista de Itaguaí, vai reencontrar em si mesmo a loucura de seus “doentes”. Como também a reencontra no mundo das idéias, ali onde pensava-se que ela teria desaparecido, ali onde não se suspeitava mais encontrá-la – implicada com a razão (Herrmann, 1997).

No entanto, é bom não esquecer que Freud jamais deixou de depositar esperanças na medicina. Ele, com sua ambígüa fé iluminista, tão bem sublinhada pelo pastor Pfister (que aponta a crença de Freud no seu deus – Logos), sempre torceu pela elucidação de processos bioquímicos supostamente subjacentes aos processos psíquicos. É de se esperar que Freud aplaudiria com gosto a descoberta de determinados neurotransmissores e sua irrefutável correlação com determinados processos psíquicos. Apesar de sua aposta na ciência, Freud, contudo, não confunde os dois registros. Na realidade, Freud propõe uma relação de concomitância e dependência entre as duas ordens de processos: os fisiológicos e os psíquicos. A partir do abandono de seu projeto como neurologista, sinalizado partir do abortamento do Projeto para uma Psicologia Científica, e reafirmado na A interpretação de sonhos, o que Freud fez foi renunciar definitivamente à ambição de se pronunciar sobre a localização anatômica, sobre qualquer relação de causalidade entre os dois registros, ou sobre qual a natureza exata de suas implicações, atendo-se, até o final, à exploração do psiquismo. Vale lembrar, no que toca à concepção de corpo na psicanálise – o conceito de pulsão (ou instinto) – Freud proclama, abertamente, ser a nossa mitologia.

Para superar o problema do conhecimento que seu objeto lançava, Freud teve de criar uma nova disciplina, não mais apoiada em métodos positivistas de conhecimento e sim ancorada na arte de interpretar sentidos, o que a afasta radicalmente de qualquer aspiração objetivista, e acaba por aproximá-la mais do domínio da linguagem, da arte e da literatura do que do campo da medicina.

Embora os avanços da neurociência estejam de acordo com o paradigma do cérebro, que já não se confunde mais com o do psiquismo, é reconhecimento geral que eles propiciaram grande conforto ao sofrimento humano, quando utilizados criteriosamente. Se a psicanálise não emprega o paradigma médico em sua prática cotidiana, é importante frisar que, no entanto, tem na psiquiatria clínica um poderoso coadjuvante em análises que assim o demandem. O desenvolvimento de drogas cada vez mais sofisticadas e menos danosas, se associadas ao tratamento analítico, podem beneficiar o paciente. Afinal, o que está em jogo em nossa prática, seja psicanalítica, seja psiquiátrica, é a questão do sofrimento humano, que, como lembram os jovens psiquiatras, é eludida no conto.

Assim, a psicanálise vai indagar de outro modo, qual a possível relação entre um “universal”, entre “o conceito”, no seu cruzamento com a horizontalidade dos acontecimentos singulares de cada paciente.

 

VIII

Final

 

Para aqueles que trabalham cotidianamente com a psicose, nas enfermarias, nos ambulatórios, nas precárias condições da saúde pública em nosso país, a leitura e a análise de O alienista de Machado de Assis funciona como ferramenta terapêutica que abre campo à percepção de si, dos colegas e professores. Brincar de contar quantos “alienistas” conhecemos (com exceção de nós próprios, claro…), considerar o alienista como uma metáfora para nossa condição, funciona como um poderoso antídoto à onipotência cega em que nos lança o furor curandis.

 

Esta “cura” só pode acontecer quando se pode rir de si mesmo (e vale dizer que nos divertimos muito com O alienista ao mesmo tempo em que analisamos o risco da encarnação de seu papel mesmo entre nós, os terapeutas). Rir de si mesmo só pode acontecer quando se conseguiu a distância necessária para que a loucura seja acolhida no espírito e não silenciada como vinha sendo até o advento da psicanálise, com exceção louvável feita à arte, que soube agasalhar em seu seio as imensas contradições do espírito.

 

Desta transformação, as falas dos alunos parecem dar um testemunho, dentre as quais selecionei a mais expressiva, das que conservo carinhosamente na memória: “Não importa o que eu fizer daqui para frente. Só sei que, de uma ou de outra forma, passará por esta experiência” – nas palavras de um residente enquanto se despedia do grupo.

Que este artigo, resultado da frutífera troca realizada nesses grupos, seja uma homenagem ao denodo desses jovens médicos, de todos estes iniciantes, futuros praticantes do inconsciente (Roudinesco, 1994).

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[1] Desejaria agradecer à Camila Pedral Sampaio, por ter acendido a chama; ao Paulo Germano, pelo incentivo aos grupos; ao Prof. Diógenes Galetti, por seu exemplo; e, finalmente, aos grupos, pelo aprendizado.

[2] referencia