O terreno

Da importância da preparação de um terreno propício à pensabilidade da psicanálise

Considerar a possibilidade de que razões inconscientes influem em nossas ações conscientes é algo que abala as estruturas de nossa organização de mundo racional, convidando-nos a novos paradigmas de pensamento. Ao penetrarmos no universo da psicanálise, somos confrontados com estranhezas que nos desafiam de um modo muito particular; o aprofundamento de seu estudo vai revelando a insuspeitada intimidade que temos com coisas como o absurdo, a loucura e o inconsciente.

Historicamente, prima observar que nem sempre a loucura esteve apartada da vida cotidiana como hoje; assim veio a ser através de um complexo processo social que se desenrolou por mais de século, e cujo marco no plano  intelectual foi a operação promovida por Descartes no pensamento do Ocidente: pelo exercício da dúvida como um método, o fundador da filosofia moderna separou radicalmente a razão da desrazão, impedindo seu diálogo em nível filosófico. A arqueologia desse silêncio é o fulcro da cuidadosa reflexão histórica realizada por Michel Foucault em seu extraordinário livro A história da loucura.

A partir de A Interpretação dos Sonhos, a interdição que pesava sobre a loucura é abolida, o homem diurno da ciência e o homem noturno dos sonhos vão coincidir numa forma de pensar que revoluciona a epistemologia clássica. A descoberta do desejo inconsciente vai rearticular a relação entre sujeito e objeto, alterando a noção de sujeito racional soberano ao objeto de seu conhecimento. É assim que, sem demora, a situação se inverte, e o absurdo maior parece ser apartar radicalmente duas coisas necessariamente implicadas: a razão e a loucura.

A psicanálise portanto rompe esse hiato e retoma o diálogo; acompanhar sua trajetória intelectual, nas tensões e transformações epistemológicas que decorreram do seu desenvolvimento, geralmente implica também em reconhecer dentro de nós o conflito entre concepções de mundo ainda em jogo em nosso cotidiano, hegemonicamente dominado pela lógica positivista que separa sujeito de objeto. Daí a necessidade da preparação de um terreno propício à pensabilidade da psicanálise, na intenção de que seja verdadeiramente fértil a aproximação a essa disciplina que se insere no âmbito mais amplo das reflexões sobre a existência humana.

“A educação que receberam previamente deu uma direção particular ao pensar dos senhores que conduz para longe da psicanálise. Foram formados para encontrar uma base anatômica para as funções do organismo e suas doenças, a fim de explicá-las química e fisicamente e encará-las do ponto de vista biológico. Nenhuma parte do interesse dos senhores, contudo, tem sido dirigida para a vida psíquica, onde, afinal, a realização deste organismo maravilhosamente complexo atinge seu ápice. Por esta razão, as formas psicológicas de pensamento tem permanecido estranhas aos senhores. Cresceram acostumados a encará-las com suspeita, a negar-lhes a qualidade cientifica, a abandoná-las em poder de leigos, poetas, filósofos naturalistas e místicos.” (Freud, Conferência de Introdução às Conferências Introdutórias, 1917)

Embora a citação acima refira-se ao ensino da medicina, ela não está muito distante do modo habitual como somos todos educados…

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